BETS: a nova escravidão emocional, financeira e espiritual que entrou também na igreja

Por Pr. GEDER MARTIMIANO

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Tenho recebido pessoas que me procuram para confessar uma dor que já não conseguem mais esconder: perderam dinheiro nas bets, fizeram dívidas, pegaram o dinheiro das contas da casa, comprometeram salário, esconderam valores da família e, agora, estão sufocadas pela culpa, pela vergonha e pelo medo.

Alguns chegam dizendo: “Pastor, eu achei que conseguiria parar.” Outros dizem: “Eu só queria recuperar o que perdi.” Alguns choram porque apostaram o dinheiro do aluguel, da energia, da comida, da prestação, da escola dos filhos. E o mais doloroso é perceber que não estamos falando apenas de pessoas distantes da fé. Estamos falando também de homens e mulheres que frequentam a igreja, cantam, ouvem a Palavra, participam dos cultos, mas estão escravizados por uma roleta digital escondida dentro do celular.

Essa é uma grave situação. E a igreja não pode tratar isso como brincadeira, entretenimento, fraqueza sem consequência ou assunto que “não precisa ser pregado”. As bets se tornaram uma armadilha moderna, acessível, sedutora, silenciosa e destrutiva.

1. O tamanho do problema no Brasil

As pesquisas recentes mostram que o Brasil está diante de uma crise. Em 2024, o DataSenado apontou que aproximadamente 22,13 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais apostaram em bets nos 30 dias anteriores à pesquisa. O Banco Central estimou que, em 2024, as transferências de pessoas físicas para empresas de apostas online chegaram a algo entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês via Pix. Outros levantamentos recentes indicam crescimento do número de apostadores e impacto direto no endividamento das famílias brasileiras.

A Anbima/Datafolha indicou que, em 2025, 17% da população brasileira fez apostas online, e a motivação mais citada foi ganhar dinheiro rápido em momentos de necessidade. Isso revela algo muito sério: muita gente não está apostando porque tem dinheiro sobrando; está apostando porque está desesperada.

A CNC estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, as bets agravaram a inadimplência e drenaram bilhões de reais do consumo das famílias e do comércio. Em outras palavras, o dinheiro que deveria sustentar casas, alimentar famílias, pagar dívidas, movimentar o trabalho honesto e preservar a dignidade, está sendo tragado por plataformas que transformam desespero em lucro.

2. E os evangélicos?

Esse é o ponto que mais nos confronta. Uma pesquisa PoderData, divulgada em 2025, apontou que 41% dos evangélicos entrevistados disseram já ter jogado em alguma bet. A mesma pesquisa mostrou que, entre católicos e evangélicos que já apostaram, 35% disseram ter se endividado por causa dos jogos.

Preciso ser honesto: não encontrei um dado público oficial que diga qual percentual de evangélicos está clinicamente viciado em bets. Uma coisa é dizer que a pessoa já apostou; outra é afirmar diagnóstico de vício ou transtorno. Mas os dados disponíveis já são suficientes para acender um alerta espiritual: há uma presença significativa de evangélicos nesse ambiente, e muitos já estão colhendo endividamento, sofrimento e culpa.

Isso precisa nos constranger. Como pastor, não posso olhar para esse dado com naturalidade. Quando uma cultura de aposta entra no coração de quem confessa fé em Cristo, não estamos apenas diante de um problema financeiro. Estamos diante de uma disputa de senhorio.

3. Por que pessoas da igreja estão caindo nisso?

Pessoas da igreja também carregam ansiedade, dívidas, frustrações, impulsos, feridas emocionais e desejos desordenados. O culto não elimina automaticamente aquilo que não foi tratado no coração. A Bíblia no banco da igreja não cura a alma que continua escondida na mentira.

Muitos entram nas bets porque estão financeiramente pressionados. Querem uma saída rápida. Estão cansados de dever, cansados de trabalhar, cansados de esperar. Então, quando a propaganda promete ganho imediato, o coração fragilizado começa a negociar com o pecado.

Outros entram por curiosidade. Dizem: “É só uma vez.” Mas muitas escravidões começam com a frase: “Eu controlo.” O problema é que aquilo que a pessoa chama de lazer pode se tornar senhor. Paulo escreveu: “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1 Coríntios 6:12). A pergunta não é apenas se aquilo parece inofensivo. A pergunta é: isso está me dominando?

“Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.”

1 Coríntios 6:12 (NVI)

Há também quem confunda fé com aposta. Isso é gravíssimo. Fé bíblica não é tentativa de enriquecer pela sorte. Fé bíblica é confiança obediente em Deus. Aposta é outra coisa: é entregar dinheiro ao acaso esperando que a ansiedade produza milagre. O cristão não foi chamado para ser guiado pela adrenalina da sorte, mas pela Palavra de Deus.

4. A psicologia por trás da escravidão das bets

As bets não prendem apenas pelo dinheiro. Elas prendem pelo funcionamento do cérebro. A pessoa aposta, perde, sente culpa, mas acredita que na próxima pode recuperar. Quando ganha alguma coisa, mesmo que pouco, o cérebro registra aquela recompensa e deseja repetir a sensação. É o chamado reforço intermitente: a vitória ocasional mantém a pessoa presa, mesmo em meio a muitas perdas.

Depois vem o ciclo mais perigoso: a perseguição da perda. A pessoa perde R$ 50 e aposta mais para recuperar. Perde R$ 200 e aposta mais alto. Perde R$ 1.000 e entra em desespero. Então pega dinheiro emprestado, atrasa conta, mente, esconde e continua tentando “voltar ao zero”. Só que o vício não quer levar a pessoa ao zero; ele quer levá-la ao fundo.

O Ministério da Saúde já trata problemas relacionados a jogos de apostas como tema de cuidado em saúde mental. A Organização Mundial da Saúde também alerta que o jogo pode produzir prejuízos financeiros, familiares, emocionais, sociais e até risco de suicídio.

Por isso, não posso tratar esse assunto apenas como “falta de vergonha”. Existe pecado, sim. Existe cobiça, sim. Existe mentira, sim. Existe desobediência, sim. Mas também pode haver compulsão, adoecimento, perda de controle e necessidade de cuidado psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico.

Pecado precisa de arrependimento. Compulsão precisa de tratamento. Dívida precisa de organização. Vergonha precisa de confissão. E a alma precisa voltar para Deus.

5. A leitura bíblica: as bets são uma forma moderna de servidão

A Bíblia não usa a palavra “bet”, mas ela fala claramente sobre cobiça, domínio, amor ao dinheiro, desejo de enriquecimento rápido e escravidão interior.

Paulo escreveu: “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10). Observe: não é apenas dinheiro. É o amor ao dinheiro. É quando o coração deposita esperança no ganho, na virada, no lucro rápido, na solução imediata. É quando Mamom começa a ocupar o lugar da confiança em Deus.

“Pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos.”

1 Timóteo 6:10 (NVI)

Provérbios 13:11 ensina que “a riqueza obtida às pressas diminuirá, mas quem a ajunta pouco a pouco terá aumento”. Provérbios 28:20 declara que “quem se apressa em enriquecer não ficará sem castigo”. Jesus afirmou: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24).

Essa é a grande questão espiritual: as bets não querem apenas o dinheiro da pessoa; querem a confiança dela. Querem seu pensamento, sua expectativa, sua emoção, sua madrugada, sua ansiedade, seu segredo e sua família.

Quando alguém pega o dinheiro das contas e coloca no jogo, isso já deixou de ser entretenimento. Quando alguém mente para o cônjuge, isso já deixou de ser brincadeira. Quando alguém promete parar e volta escondido, isso já deixou de ser controle. Quando alguém ora pedindo livramento, mas mantém o aplicativo instalado, isso já deixou de ser fraqueza comum. É escravidão.

E toda escravidão precisa ser confrontada pela verdade.

6. Qual é a solução?

A primeira solução é parar de mentir. Enquanto a pessoa continuar escondendo, o vício continuará governando. O segredo é o oxigênio da escravidão. A confissão é o começo da libertação.

A segunda solução é arrependimento prático. Não basta chorar depois de perder. Não basta dizer: “Deus me perdoe”, e continuar com acesso livre ao aplicativo. Arrependimento verdadeiro corta caminhos. Apaga aplicativo. Bloqueia site. Cancela cartão. Limita Pix. Presta contas. Entrega a administração financeira temporariamente a alguém de confiança, se for necessário.

A terceira solução é pedir ajuda. A pessoa precisa procurar liderança madura, aconselhamento pastoral, apoio psicológico e orientação financeira. Quem está perdendo o controle não deve caminhar sozinho. Em situações de desespero intenso, depressão, crise emocional ou pensamentos de morte, é necessário buscar ajuda imediatamente, inclusive serviços de emergência, rede pública de saúde, CAPS, UBS ou o CVV pelo telefone 188.

A quarta solução é restaurar a verdade dentro de casa. Muitos casamentos estão sendo feridos não apenas pela perda financeira, mas pela mentira. O dinheiro perdido machuca; a mentira destrói confiança. O caminho da restauração passa por transparência, prestação de contas e reconstrução paciente.

A quinta solução é voltar ao contentamento. O cristão precisa reaprender que provisão não é sorte, é cuidado de Deus; prosperidade não é ansiedade multiplicada, é mordomia fiel; avanço financeiro não nasce de aposta, nasce de trabalho, sabedoria, disciplina, generosidade e governo sobre os desejos.

Conclusão: uma palavra pastoral e profética à igreja

Como pastor, eu não posso me calar. Tenho recebido pessoas feridas por essa escravidão. Tenho ouvido confissões de homens e mulheres que perderam dinheiro, paz, autoridade dentro de casa e dignidade diante da família. E eu creio que esse assunto precisa voltar para a igreja com seriedade, temor e responsabilidade espiritual.

A igreja precisa falar sobre isso. Os púlpitos precisam alertar. Os pastores precisam orientar. Os líderes precisam observar. Os pais precisam conversar com os filhos. Os maridos precisam prestar contas. As esposas precisam estar atentas. Os jovens precisam ser ensinados. Os idosos precisam ser protegidos. Não podemos permitir que uma geração inteira seja discipulada por propagandas de lucro fácil enquanto a igreja permanece em silêncio.

Eu declaro com temor: bet não é apenas um aplicativo no celular; pode se tornar um altar secreto onde muitos estão sacrificando o dinheiro da família, a paz da casa e a confiança em Deus.

A igreja de Jesus não pode normalizar aquilo que está escravizando o povo. Não podemos chamar de entretenimento aquilo que está produzindo dívida, mentira, ansiedade, depressão, brigas conjugais e destruição financeira. Não podemos tratar como “fraqueza pequena” aquilo que está roubando o pão da mesa e a paz do coração.

É tempo de arrependimento. É tempo de confronto. É tempo de quebrar o silêncio. É tempo de voltar ao governo de Cristo.

Aos que estão presos, eu digo com firmeza e misericórdia: pare de negociar com a escravidão. Procure ajuda. Confesse. Corte o acesso. Reorganize sua vida. Volte para Deus. Sua história não precisa terminar na vergonha. Cristo ainda liberta cativos. Cristo ainda restaura casas. Cristo ainda quebra correntes. Cristo ainda devolve dignidade a quem se arrepende e decide andar na luz.

E à igreja, eu digo: precisamos ser lugar de verdade e cura. Nem conivência, nem humilhação. Nem silêncio, nem exposição irresponsável. A resposta da igreja deve ser graça com verdade, acolhimento com confronto, oração com acompanhamento, fé com responsabilidade.

Porque onde Mamom escraviza, Cristo liberta. Onde a mentira aprisiona, a verdade cura. Onde a bet prometeu sorte, Deus chama o homem e a mulher de volta à sabedoria. E onde houve queda, ainda pode haver restauração — se houver arrependimento, luz e obediência.

Fontes consultadas

  • DataSenado / Agência Senado — pesquisa “Panorama Político 2024”.
  • Banco Central do Brasil — estudo técnico sobre o mercado de apostas online no Brasil (2024).
  • Anbima/Datafolha — “Raio X do Investidor Brasileiro” (2025).
  • Agência Brasil / CNC — levantamento sobre impacto das bets no endividamento (2023-2026).
  • PoderData / Poder360 — pesquisa sobre evangélicos, católicos e apostas (2025).
  • Ministério da Saúde — Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas.
  • Organização Mundial da Saúde — ficha técnica sobre gambling e saúde mental.
  • CVV — Centro de Valorização da Vida, telefone 188.